Crónica de João Silva (Piloto WRC Academy)

Aqui fica a crónica de João Silva, Piloto WRC Academy, relativa ao Vodafone Rally de Portugal, onde o piloto português explica com detalhe o que foi esta sua experiência ‘mundialista’, pondo a nú algumas deficiências estruturais dos ralis em Portugal, cujos pilotos, quando são confrontados com a realidade do WRC, notam imensas diferenças. Por exemplo, os treinos ilimitados em Portugal, o que cria um hábito que redunda num grande choque quando no WRC só podem realizar duas passagens. Este é um exemplo, mas há muitos, e por aí talvez se perceba melhor as dificuldades dos pilotos lusos quando se aventuram no estrangeiro…

Olá amigos,

Decidi passar a palavras a minha primeira incursão na WRC Academy, agora que é tempo de reflectir em tudo o que se passou na última semana, absorver o importante, compreender o que correu mal e seguir em frente, isto depois de uma estreia que ficou aquém das minhas expectativas. Quero assim partilhar convosco todas as histórias, sabores e dissabores da nossa participação no Vodafone Rally de Portugal.

Como muitos sabem, passei os últimos meses a preparar a minha entrada na WRC Academy, lutando contra o desinteresse das entidades, para conseguir ser o primeiro português na academia, sanando uma lacuna gritante na formação dos jovens pilotos portugueses. Os patrocinadores não apareceram como merecia, e só com o apoio familiar consegui concretizar a minha entrada.

Logo de início percebi que o nível de exigência ia ser muito elevado, e no estágio na M-Sport tive a confirmação. Conheci os principais adversários, assisti a diversas palestras e formações importantes, e fiquei maravilhado com esta nova realidade. Voltei para Portugal e nunca mais esqueci o que tinha aprendido. Dediquei-me todos os dias à minha estreia, com treino físico, treino psicológico e alimentação. Perdi 6 kg, de um plano que prevê perder mais 15kg ao longo da época. Dei por mim motivado e concentrado no objectivo de não defraudar as expectativas de quem me apoia.

O meu orçamento da época é ainda limitado, e por esse motivo tive de cancelar a ida ao Sata Rally dos Açores e ao teste privado de pré-época, para poupar o máximo de dinheiro. Neste aspecto por mais que quisesse não comecei bem.

Entretanto, depressa chegou o momento de arrumar as malas e seguir para o Algarve. O ACP ajudou-nos dentro do possível e convidou-me para estar presente no Rali Sprint de Fafe. Mas de novo tive de recusar pois não podia alugar um carro para tal.

Cheguei ao Algarve no Domingo anterior à nossa prova e no Estádio Algarve reunimo-nos com os responsáveis da M-Sport e restantes concorrentes. O ambiente era fabuloso, todos entusiasmados com o início da época. Verificações documentais e outras burocracias tratadas, e seguimos para formação com o Chris Patterson, navegador do Petter Solberg, sobre reconhecimentos e planeamento dos ralis. Dei por mim a fazer imensas perguntas, sinal positivo do meu desembaraço, mas algo negativo pois já devia saber tanto como os outros.

Nos dois dias seguintes tivemos os reconhecimentos. Dois dias inteiros no carro, com horários apertados, e com a responsabilidade de não falhar em nada, pois o rali dependeria disso. Correu bem, não tivemos percalços, conseguimos reconhecer tudo e o sentimento era encorajador.

Na quarta-feira, dia de testes, e logo pela manhã fomos os primeiros a ir para a estrada. Encontramos o piso muito seco, duro e ainda sujo. Fiz algumas alterações nas suspensões, e aos poucos já me sentia mais à vontade. O teste durou 4 horas, mas só conseguimos fazer 50 quilómetros, pois era um teste colectivo. Muito pouco para quem desconhecia o carro por completo.

Mas isso não interessava, tínhamos que manter a motivação e confiança em alta, e fazer bem o nosso trabalho para colmatar essa inexperiência. Durante a tarde, avaliação da nossa condição física com o Personal Trainer da M-Sport, e surpreendentemente, eu e o José fomos dos melhores. Terminamos com 18 e 19 pontos respectivamente, quando por exemplo o sueco que mais classificativas venceu no rali, terminou com 12,5 pontos. Após este treino exaustivo, tivemos uma formação em primeiros-socorros com os médicos da FIA, que sem dúvida será muito importante reter.

E lá chegou o dia da estreia – cinco horas da manhã acordamos e apanhamos o autocarro da Academia rumo a Lisboa – uns dormiam, outros falavam, mas eu só conseguia rever os vídeos on-board dos treinos, para me familiarizar com os troços da noite, como me foi aconselhado na formação. Chegamos a Lisboa pelas 11horas, reconhecemos como é tradição a especial em carrinhos de golfe, e seguimos para uma sessão fotográfica junto ao Padrão dos Descobrimentos.

Após essa sessão, fui convocado para a conferência de imprensa da FIA, onde respondi com naturalidade a diversas questões em inglês. Nem deu tempo para almoçar, e começamos o rali, como primeiro na estrada na especial de Lisboa, diante do nosso público, que gritava e aplaudia as nossas passagens orgulhosamente. Fiquei muito emocionado pelo carinho e afecto que senti em Lisboa, mas acima de tudo pelo reconhecimento do nosso esforço por estar ali a representar Portugal.

Com pouco tempo para uma ligação tão extensa, só tive tempo de acenar e agradecer a todos os presentes, com pena de não ter sido autorizado a levar a nossa bandeira na asa do Fiesta. Seguimos pela A2 rumo ao Alentejo, devagarinho para poupar o combustível, sempre com o olhar atento do Lucas, comissário da FIA, que foi a nossa “sombra” em todo o lado.

Chegando a Ourique, mudamos os pneus e reabastecemos o carro, para uma espera de 7 horas no reagrupamento enquanto chegavam os pilotos da frente um por um. Foi aí que tudo mudou, e começou a chover. Com os carros em parque fechado, pouco podíamos fazer e percebemos que as restantes equipas estavam a planear adaptar os seus carros a essas condições, mas eu não sabia bem por onde começar e decidi apenas amaciar os amortecedores da frente, no pouco tempo de ligação disponível.

A primeira especial a sério, bem como as seguintes, foram realizadas debaixo de muita chuva, visibilidade reduzida, numa noite de tempestade. O carro reagia a todos os ressaltos, e não lidava bem com os pisos escorregadios. A minha confiança foi ainda mais abalada, quando as notas davam mais destaque ao ritmo, do que ao ângulo da curva, o que me fazia saber como entrar na curva… mas não para onde apontar.

Problema que vem de trás, pois em Portugal temos um dia livre de treinos, que nos permite reconhecer as especiais diversas vezes e memorizar algumas secções essenciais em cada troço. Aqui isso não acontece! Tentei apenas chegar ao final do dia, mas ainda assim não evitei uma saída de estrada no último troço, quando ao abordar uma esquerda 3, não defini uma ligeira direita, e induzido em erro, entrei numa esquerda… com um posto rádio! Fiquei preso na berma por uns 4 minutos, até que os espectadores, aos quais agradeço imenso, nos ajudaram a retomar o percurso. Terminou o pior dia de rali que alguma vez tinha vivido! – achava eu.

No dia seguinte, tudo era igual, chuva, lama, e desta vez nevoeiro. As duas primeiras especiais foram inacreditáveis. Era muito difícil manter-nos nas trajectórias e saber para onde apontar o carro. Os pilotos da frente estavam encostados ao longo de todo o troço e nós só pensávamos em chegar ao fim. Com alguma sensatez a organização cancelou as restantes especiais. Ainda assim ficamos atascados na ligação e fomos finalmente rebocados pela organização até ao asfalto.

Com o dia a terminar mais cedo, foi tempo de repensar em tudo o que se tinha passado, pois estávamos a perder imenso tempo para os mais rápidos, o que nunca é agradável. Na revisão do carro deparamo-nos com o acelerador electrónico descalibrado, que apesar de não ser o nosso principal problema, não nos deixava acelerar e utilizar o motor na sua total magnitude. Depois confrontamos o engenheiro com o nosso set-up e ele aconselhou-nos a dar uma volta drástica no mesmo, e lá amaciamos o carro todo.

Quando chegamos ao último dia do nosso rali, finalmente o tempo ajudou, e com as alterações feitas no carro a nossa confiança começou a voltar. Conseguimos fazer as restantes três especiais sem problemas, num ritmo interessante, sem poder aspirar a subir na classificação sem problemas dos adversários. A diferença nos tempos era muita e o ritmo dos da frente era impressionante.

Terminamos o rali no oitavo lugar e como terceiros melhores estreantes. Não foi o que tínhamos imaginado, mas foi o possível tendo em conta tudo o que se passou. Neste momento sei onde falhei e porque fui batido, e isto é o principal para poder saber onde actuar para melhorar.

Sei que não tenho o melhor sistema de notas e não tenho o conhecimento necessário do carro e dos pisos de terra. Até somos tecnicamente bons, mas nos ralis… só isso não chega. Vamos precisar de crescer, fazer mais e melhor para estarmos ao nível que é exigido. Este trabalho é meu, piloto, e do José Janela, navegador, pois a nossa experiência e títulos em Portugal é importante, mas de pouco serve lá fora.

Como é óbvio, só se fossemos talentos fora do normal, poderíamos chegar, ver e vencer. Mas não somos. Somos uma equipa motivada e trabalhadora, que olha para os desafios de frente, e não se refugia atrás de ninguém e em campeonatos mais acessíveis. Sabemos de onde vimos e para onde queremos ir, e a nossa coragem e ousadia é o que mais nos distingue.

Obrigado a todos os que nos apoiam e partilham os nossos valores. Corremos por nós e por vós.

Até a Grécia, com um abraço!

João Silva

  FORÇA JOÃO, ESTAMOS SEMPRE CONTIGO!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s